Portugal navega rumo a um destino claro
Conferência do Bison Bank reuniu líderes para debater o futuro do investimento, com foco na estabilidade, inovação digital e capital de risco.
Lisboa, 4 de novembro de 2025 – A conferência “Portugal: Investment by Global Citizens”, organizada pelo Bison Bank, transformou-se na passada 6ªf, dia 31 de outubro, no epicentro do debate sobre o futuro do investimento em Portugal. O evento, realizado em Lisboa, reuniu um leque de especialistas, investidores e decisores políticos de alto nível que, sob o mote da confiança, visão e oportunidade, analisaram o percurso do país e traçaram as linhas mestras para a sua afirmação como um hub global de capital e talento.
A visão do Governo: confiança e estabilidade como alicerces
A abertura institucional ficou a cargo de João Rui Ferreira, Secretário de Estado (SE) da Economia, que transmitiu uma mensagem de confiança e ambição. O SE sublinhou a resiliência da economia portuguesa, destacou que o país cresceu 2,1% em 2024, acima da média da União Europeia, e que registou um excedente orçamental de 1% do PIB no primeiro semestre de 2025, com a dívida pública em trajetória descendente.
“Aquilo que estamos a fazer em Portugal é mesmo navegar com um destino. E é um destino muito claro, (…) melhorar a vida dos portugueses, e só se consegue melhorar a vida dos portugueses se trouxermos para Portugal valor,” afirmou o Secretário de Estado. “Portugal, hoje, de facto, inspira confiança a todos.”
O governante destacou ainda três vetores fundamentais: confiança – ancorada em dados concretos como a redução da dívida pública para uma projeção de 88% em 2026; visão – com Portugal a posicionar-se como hub europeu de inovação e sustentabilidade, onde 82% da energia consumida entre janeiro e maio teve origem em fontes renováveis; e oportunidade – evidenciada pelo stock de investimento estrangeiro que atingiu 200 mil milhões de euros em 2024, equivalente a 71% do PIB.
“Temos hoje seis empresas unicórnio a nível global e uma rede crescente de startups tecnológicas. Em 2024, o número de startups em Portugal cresceu cerca de 20%, passando para 4.700 empresas, que já empregam 26.000 pessoas e geram um volume de negócios de quase 3.000 milhões de euros,” revelou João Rui Ferreira, ao sublinhar o foco do governo em: inovação, crescimento e internacionalização.
A fronteira digital: a revolução dos criptoativos e da tokenização
Um dos momentos altos da conferência foi a intervenção de Diogo Mónica, cofundador da Anchorage Digital, o primeiro e único banco de criptoativos com licença federal nos EUA. Diogo Mónica afirma que a tokenização é a próxima grande revolução, inevitável e transformadora, que permitirá passar de um modelo de “vender dezenas de produtos para milhões de clientes, para vender milhões de produtos para milhões de clientes”.
“Os ETFs são o primeiro passo na revolução tecnológica dos mercados financeiros, o segundo será a tokenização de todos os ativos financeiros,” previu, lançando um repto ambicioso: “Proponho que aqui
em Portugal façamos uma coisa semelhante. Vamos fazer de Portugal a nação de startups dominante e vamos usar cripto para o fazer.”
Diogo Mónica apresentou dados sobre o crescimento das stablecoins, que indicam que já são o 11º maior detentor de dívida soberana dos Estados Unidos, ultrapassando países como a Coreia do Sul e a Arábia Saudita. “Em 2025, conseguimos fazer uma transação de um número ilimitado de dólares em stablecoins – de um cêntimo a um trilhão de dólares – em menos de um segundo, por menos de um cêntimo, globalmente, sem permissão e instantaneamente,” explicou, para demonstrar o potencial disruptivo desta tecnologia.
Investir no Futuro a partir de Portugal: A Visão da CVVC
David Long, Chief Commercial Officer da CV VC (Crypto Valley Venture Capital), main partner da conferência, destacou o papel de Portugal como um hub de inovação. Sublinhou que a CV VC, empresa suíça líder em blockchain e cripto, escolheu Portugal como um dos seus sete hubs globais devido à sua geografia estratégica, ao forte apoio governamental e à cultura vibrante que fomenta startups e atrai capital.
David Long referiu ainda que a JP Morgan projeta que a indústria de cripto e blockchain valerá 16 triliões de dólares até 2030, um valor que a CV VC considera conservador. Explicou a evolução da internet (Web 1, Web 2) para a “Internet of Value” (Web 3.0), impulsionada por blockchain e inteligência artificial, que servem como “tecnological rails” para futuras inovações. Destacou o sucesso dos ETFs de Ethereum e Bitcoin e o crescimento das stablecoins, enfatizou que a nova geração de investidores tem dado prioridade a criptoativos, private equity e setor imobiliário, e destacou que a CVVC direciona os seus investimentos a empresas em estágio inicial que utilizam tecnologias emergentes para resolver problemas empresariais.
O ecossistema de capital de investimento: o motor comprovado do crescimento
O debate sobre o capital de risco foi aprofundado com a apresentação de estudos que comprovam o seu impacto. João Duarte, professor da Nova SBE, apresentou conclusões de um estudo pioneiro em parceria com a Investors Portugal, ao afirmar que “o capital de risco não só acompanha o crescimento, causa o crescimento”. O estudo revela que, por cada 100 milhões de euros investidos através de capital de risco, o PIB português aumenta em cerca de 1% após 10 anos.
Os dados revelam que as empresas que recebem investimento de capital de risco triplicam a sua faturação em três anos, duplicam as exportações e aumentam a produtividade do trabalho em 20%. “Há um efeito de causalidade, único e exclusivamente vindo da intervenção de investimento de capital de risco. Este é o grande ponto central do nosso trabalho,” sublinhou João Duarte.
Stephan Morais, presidente da APCRI (que em breve passará a designar-se APCI – Associação Portuguesa de Capital de Investimento), defendeu a profissionalização do setor e a necessidade de alinhar com as melhores práticas internacionais. “A base dos ecossistemas saudáveis de Private Equity ou Venture Capital são grandes investidores institucionais e os Family Offices. A mudança de paradigma tem de ocorrer,” defendeu.
Stephan Morais revelou que, em Portugal, as participadas de capital de risco têm 15 vezes mais emprego do que a média das empresas portuguesas, geram um volume de negócios 12 vezes superior à média nacional, e 50% das suas receitas provêm de exportações. “Portugal passou de um país que não tinha capital disponível para investir, para um país onde existe capital disponível. Hoje temos cerca de 10.000 milhões de euros em stock disponível para investimento,” afirmou.
Banco Português de Fomento: fazer acontecer na economia
Gonçalo Regalado, Presidente Executivo do Banco Português de Fomento (BPF), partilhou a transformação do banco nos últimos dez meses, com a marca “Fazer Acontecer” a materializar-se em resultados concretos. “Passámos de processos que demoravam 49 dias para sete dias, reduzimos o número de documentos necessários de 27 para cinco, e criámos uma máquina de garantias pré-aprovadas,” revelou.
O banco já aprovou quase 18.000 candidaturas com 5.500 milhões de euros em garantias, numa transformação radical do apoio às empresas. “Fizemos uma candidatura ao Fundo Europeu de Investimento para ter garantias novas de 6.500 milhões de euros – o dobro da Grécia e da Espanha. Portugal tornou-se o país número um no Fundo Europeu de Investimento,” afirmou Gonçalo Regalado.
O BPF anunciou ainda o seu papel na candidatura de Portugal a uma gigafactory de inteligência artificial, um projeto que reúne empresas como a Renault, Airbus, Bial, Siemens, Nokia e Microsoft, entre outras. “Quando começámos, a nossa probabilidade era inferior a 5%. Hoje estamos bem posicionados na luta pelos cinco países europeus que vão receber estas fábricas,” revelou.
Co-criar o Futuro: Parcerias Público-Privadas e Desafios Estruturais
O Professor António Nogueira Leite (FinProp Capital) abordou a importância da colaboração eficaz entre os setores público e privado para o futuro da economia portuguesa. A sua tese central defende que esta colaboração, assente em regulação estável, mercados de capital líquidos e melhores práticas internacionais, é crucial para materializar oportunidades e resolver problemas.
Nogueira Leite destacou a necessidade de alinhar prioridades estratégicas, incluindo o investimento contínuo em energias renováveis – onde Portugal já é líder europeu, com 82% da energia a provir de fontes renováveis em 2025, demonstrando o sucesso de incentivos claros e regras estáveis. Mencionou também a importância de uma economia digital robusta, um ecossistema de inovação reforçado, a modernização de infraestruturas e da administração pública, e a manutenção de um ambiente legal funcional e transparente.
Nogueira Leite alertou para o “estrangulamento” do processo de investimento devido à ineficiência da administração pública e às constantes alterações regulatórias, que geram “risco regulatório” e “risco legal” para os investidores. Sublinhou que Lisboa tem potencial para ser um hub de capital de risco, beneficiando do talento, custos competitivos e um ecossistema crescente, mas que isso exige políticas públicas estáveis, vistos para o talento e incentivos fiscais adequados.
Vistos gold e atração de talento global
João Mira Gomes, da Henley & Partners, revelou que Portugal está no top 7 mundial de países que mais atraem milionários, com 1.400 indivíduos com elevado património líquido (HNWI) estimado para 2025 (mais 62% que em 2024), o que resulta num agregado líquido superior a 8 mil milhões de dólares.
Mira Gomes frisou que a riqueza digital e os criptoativos estão a tornar-se um novo vetor de riqueza global. Referiu o Crypto Wealth Report, que aponta para mais de 241 mil cripto-milionários e 600 milhões de utilizadores de criptoativos globalmente. Portugal, com as suas regras fiscais claras para criptoativos e a licença pioneira do Bison Bank Digital Assets, posiciona-se como um destino atrativo. Sublinhou que governos com visão de futuro criam legislação para atrair este investimento fluido, e que a mobilidade de milionários é uma “nova guerra” entre países por recursos escassos.
“Os investidores não gostam de intranquilidade. Quando fazem um investimento a cinco anos, querem saber que as regras serão as mesmas,” alertou, defendendo a estabilidade das políticas de residência
por investimento e sublinhando que “a agilidade será o fator determinante de sucesso para os países que os recebem.”
A estratégia lego: Portugal hub financeiro
Jefferson de Lima Matias Oliveira, da PwC, defendeu a “Estratégia LEGO Portuguesa”, para ilustrar o potencial de Portugal se posicionar como um centro financeiro europeu, à semelhança do Luxemburgo e da Irlanda. A ideia central é que Portugal já possui as “peças” essenciais para construir este hub, que são: um mercado de investimento dinâmico (com crescimento de fundos e ativos acima da média europeia), uma base de investidores de qualidade (com destaque para o fluxo de investidores americanos e a maior propensão para criptoativos), a sua posição como porta de entrada para a Europa e a liderança na digitalização.
Jefferson de Lima Matias Oliveira mencionou que o investidor de retalho português já demonstra uma adoção de criptoativos duas vezes superior à média europeia, e que existe um potencial significativo para a diversificação para fundos de investimento. A PwC acredita que Portugal tem condições de se posicionar como uma jurisdição com potencial de ter 1 trilião de ativos sob gestão num período de 5 a 6 anos, comparando com Singapura, que passou de 1 trilião em 2010 para 6 triliões em 2025. “Se Singapura fez, Portugal também pode fazer,” afirmou.
Uma visão geopolítica: o sossego como ativo estratégico
Numa análise geopolítica, Paulo Portas destacou a resiliência e previsibilidade de Portugal num mundo volátil. Um dos maiores sucessos do país foi a redução da dívida pública, que deverá ser inferior à média da Zona Euro pela primeira vez em 2030. “Aconteça o que acontecer no mundo, Portugal preservará os seus fundamentais. Tomara muitos países terem o sossego que Portugal tem e a previsibilidade que Portugal tem,” afirmou, identificando a estabilidade como um ativo distintivo.
Portas realçou também os fatores estruturais de Portugal: “Somos o Estado-nação de fronteiras estáveis mais antigo da Europa, sem divisões tribais, linguísticas, étnicas ou separatistas relevantes. Há muito poucos países na Europa que tenham um network de relações e conhecimento de África, da América Latina e da Ásia como Portugal tem.”
No entanto, alertou para os desafios estruturais que precisam de ser enfrentados com “compromisso, acordo e constância”, nomeadamente a demografia (com uma idade mediana de 47 anos), a produtividade (Portugal tem 75% da produtividade europeia por hora trabalhada) e a inovação (onde a Europa perdeu terreno para a China desde 2016).
A missão do Bison é criar um ecossistema para os “atletas de alta performance”
António Henriques, CEO do Bison Bank, enquadrou o propósito da conferência: definir um rumo claro para o país, de forma a servir um novo perfil de investidor.
“Quem investe em Portugal são pessoas de sucesso, são atletas de alta performance. Nós temos que lhes dar uma matéria-prima para eles continuarem a ser atletas de alta performance,” sublinhou. “O nosso objetivo é unir os vários intervenientes para sentir o que temos, quem são os nossos clientes e que produtos podemos oferecer para que continuem a sua vida de sucesso em Portugal.”
António Henriques indicou que o Bison Bank duplicou os seus resultados em 2025, ultrapassou os 6 mil milhões de euros em ativos sob supervisão e serve quase 7.000 clientes em mais de 125 geografias. “Hoje não é para falar do Bison Bank, é para falarmos de Portugal. Portugal precisa de ter presente o seu destino. Precisamos todos de perceber para onde queremos caminhar.”
No encerramento, António Henriques atribuiu simbolicamente prémios às melhores intervenções: a melhor pergunta ao editor do Negócios, Paulo Moutinho (“Portugal trata bem os investidores?”), a melhor alteração a Stephan Morais (mudar de “capital de risco” para “capital de investimento”), a melhor afirmação a João Duarte (“capital de risco causa o crescimento”), e a frase do dia a Paulo Portas: “Portugal tem sossego”.
Debates Estratégicos: Caminho percorrido e as Oportunidades futuras
A conferência foi palco de três painéis de debate que reuniram líderes de mercado e especialistas para uma reflexão aprofundada sobre os desafios e oportunidades do investimento em Portugal. As discussões, abordaram desde a jornada de recuperação económica do país até aos fatores que impulsionam o investimento no presente e as perspetivas para o futuro, incluindo o setor imobiliário.
1. “A Jornada de Investimento de Portugal: marcos, impacto e lições aprendidas”: O primeiro painel, com a participação de Emanuel Silva (CEO da IM Gestão de Ativos), Marcello Cavalcanti (Investment Manager da Octanova), Raúl Marques (Executive Board da 3XP Global) e Rita Albuquerque (Head of Primary Markets Portugal da Euronext Lisbon), analisou a notável recuperação de Portugal após a crise financeira. Emanuel Silva considerou que a bancarrota, embora difícil, “acabou efetivamente por ser de alguma forma positivo” para a recuperação económica. Raúl Marques sublinhou a “disciplina orçamental” e o consenso em torno das “contas certas” como fatores cruciais para a redução da dívida pública. Marcello Cavalcanti destacou o papel da resolução bancária e dos juros baixos do BCE na impulsão da recuperação.
Foi reconhecido que programas como os vistos gold, foram importantes “abridores de porta”, como referiu Raúl Marques, mas Rita Albuquerque alertou para a necessidade de um maior aproveitamento do mercado de capitais, que considera “subutilizado”, para criar escala nas empresas. Os participantes destacaram ainda a importância da estabilidade regulatória e da simplificação burocrática para manter a confiança dos investidores, com Emanuel Silva a alertar que “o dinheiro é cobarde” e Marcello Cavalcanti a reforçar que “credibilidade, como a gente sabe, só se perde uma vez”.
2. “Aqui e Agora: os verdadeiros fatores que impulsionam o investimento em Portugal”: O segundo painel, composto por António Mello Campello (Partner na Blue Crow Capital), Nuno Serafim (Managing Partner na 3 Comma Capital SCR), Pedro Falcão (Vice-Presidente da Investors Portugal) e Stephan Morais (Co-Fundador e Diretor-Geral na Indico Capital Partners), focou-se nos fatores atuais que impulsionam o investimento. Nuno Serafim realçou como a estabilidade política e social de Portugal, num contexto global volátil, tem sido um atrativo para investidores de alta qualidade, nomeadamente norte-americanos. António Mello Campello expressou preocupação com a excessiva dependência de decisões políticas e a instabilidade regulatória, que afetam o investimento.
Stephan Morais defendeu a profissionalização do ecossistema de capital de investimento, alinhando-o com as melhores práticas internacionais e promovendo a participação de investidores institucionais e family offices, com Pedro Falcão a concordar na necessidade de um “fundo de fundos” e incentivos fiscais permanentes. A discussão também abordou a
crescente importância de setores como a tecnologia, energias renováveis e defesa, e a necessidade de repensar os sistemas de poupança e pensões na Europa.
3. “Portugal Global: Como manter o mundo a olhar para nós”: O terceiro painel, que contou com André David Nunes (Chief Investment Officer da Arrow Global Portugal), José Cardoso Botelho (Diretor Executivo Real State Sector), Pedro Lancastre (CEO da DILS Portugal) e Rita Torres-Baptista (Co-Founder da MAR – Tokenized Real Estate), dedicou-se ao futuro do setor imobiliário. André David Nunes afirmou que “desde a grande crise financeira, Portugal entrou no radar dos investidores internacionais e não saiu de lá”. Os especialistas concordaram que o país continua a ser um destino atrativo, mas que é crucial elevar a qualidade da oferta e investir em infraestruturas e serviços para além dos centros urbanos, como defendeu José Cardoso Botelho, e explorar novas regiões, uma ideia partilhada por Pedro Lancastre.
A sustentabilidade foi apontada por Rita Torres-Baptista como um fator crucial para a criação de valor a longo prazo, defendendo um “crescimento seletivo”. Rita Torres-Baptista apresentou a inovação da tokenização de ativos imobiliários como uma ferramenta revolucionária para democratizar o acesso ao investimento e aumentar a liquidez, permitindo a participação de um leque mais vasto de investidores. A importância das parcerias público-privadas e de um quadro regulatório estável foi reiterada como essencial para enfrentar o desafio da habitação e impulsionar o crescimento sustentável do setor.
Números que marcaram o evento
A conferência contou com mais de 400 participantes e com o apoio do main partner CV VC Crypto Valley Venture Capital, e dos partners 3 Comma Capital, 3xP Global, Blue Crow, FinProp Capital, IM Gestão de Ativos, Indico Capital Partners, Octanova e PwC, tendo o Jornal de Negócios como Media Partner.
